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quarta-feira, 1 de março de 2017

Medo de Carranca?


- Pastor, você viu os carros alegóricos com entidades do candomblé e com demônios no desfile das escolas de samba do Rio?
- Oi mano. Vi um resumo no noticiário...
- Não acha prejudicial?
- São manifestações culturais e religiosas do nosso povo, não tem nada de novo ali...
- Mas é uma apologia a satanás!
- Olha, os programas de TV dos teleevangelistas fazem apologia ao diabo todo dia, e não vejo ninguém se levantar e se manifestar contra. A entidade que está no carro alegórico já fala por si mesma, e quem quiser que a siga e adore, mas ela está ali como de fato é, e não travestida de piedade e santidade, de falso moralismo e impecabilidade, coisa que essa gente perversa faz em nome de Deus.
- Como assim? Não entendi nada...
- Ora, eu prefiro o diabo que vem com chifre e fogo do que o que se esconde atrás da religião cristã, que se veste com paletó e bíblia na mão e faz negociatas por detrás das cortinas, que distorce o Evangelho atribuindo-lhe práticas que são tão pagãs quanto à dos orixás, que rouba com promessas de prosperidade viúvas e órfãos, pobres e desvalidados, todos fracos de mente, coagidos a dar dízimos para engordar a conta de bispos, apóstolos e outras entidades do mundo evangélico.
- As figuras são horrendas, só olhar dá medo! Você sente que é coisa do mal!
- Ora, esse é o diabo dos crentes, o diabo ocidentalizado, construído no inconsciente coletivo pelas imagens medievais da inquisição católica e pela peça de Dante Alighieri – ainda no século XII, foi feito para assustar criancinhas, não tem nada do inimigo do qual Jesus fala, que se traveste de anjo de luz, com uma sofisticação requintada, que não bebe sangue, nem se corta, nem rodopia, nem fala com voz rouca, nem treme, mas desperta o pior que há no homem, que é o seu desejo egoísta, a sua falta de solidariedade, a sua vaidade e a sua arrogância. Judas ficou possesso quando traiu Jesus, mas não apresentava nenhum dos trejeitos caricatos dos demônios da Universal. O diabo está em outra, ele senta no banco da igreja e assiste aos cultos dando risadas das mensagens dos pregadores deste tempo. Enquanto isso, os crentes estão fazendo batalha espiritual contra os demônios dos carros alegóricos...
- Não sei o que pensar...
- Pois eu lhe digo, com toda a honestidade, as manifestações do carnaval feitas pelas escolas de samba são imensamente menos prejudicial do que as declarações públicas e rotineiras de gente que se diz de Deus, mas está, sim, a serviço de satanás. Eu prefiro ver um carro alegórico com a cabeça de um capeta de filme do Spilberg a um trio elétrico, na “Marcha para Jesus”, com a carranca de um Malafaia, abraçado com meia dúzia de politiqueiros da bancada evangélica, rindo e impondo as mãos sobre a multidão, enquanto na sua vida ele propaga intolerância contra gays, truculência contra outras religiões e violência contra a verdadeira fé em Jesus... CM

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